
Verdade seja dita: o que faz com que os seres humanos consigam viver harmoniosamente em sociedade, suportando-nos uns aos outros, sem que nos voltemos àquele instinto animal de pular na jugular alheia, é basicamente nossa capacidade de mentir.
Não, não me entendam mal. Não vou fazer uma apologia ao ato de enganar, trapacear e causar dano a alguém, mas estou falando da capacidade que temos de evitar aporrinhação desnecessária reescrevendo a realidade. Sim, deste jeito, durmo bem melhor a noite.
Sério, se o Diabo é o pai da mentira, aposto que a mãe é a Educação ou o Bom Senso.
Como é que você faz quando aquela tia da sua mãe te manda, de presente de aniversário, uma camisa com seu nome (de 5 letras) bordado em 9 cores diferentes, e depois te liga para saber se você gostou? Assumindo que não estamos tratando com uma velha sádica, que prefere sacanear os sobrinhos-netos, ao invés de falar mal das novelas da Globo, e sim de uma senhora simplesmente tão afetuosa quanto sem noção, não dá para dizer que achou a camisa “uma bosta psicodélica” e desligar na cara dela. Sim, esta alternativa vai te dar uma sensação de conforto e pode até fazer com que você queira emoldurar a camisa, mas seja por afeto, convenções sociais, consideração à velhinha ou à sua mãe que te suplica desesperada na sua frente, enquanto a veia de sua testa salta, você simplesmente agradece e diz que adorou. Não estou certo?
Tudo para manter sua imagem e deixar intactos os sentimentos alheios. Mentirinhas brancas, por assim dizer.
Eu consigo conversar com uma pessoa, por horas, sem ao menos tocar no nome dela, sendo social e amistoso, fazendo perguntas vagas que vão me dando o caminho de onde eu conheço a figura. Na boa, sou um cara social e acabo conhecendo muita gente, o que as vezes deixa a falsa impressão de que conheço bem a pessoa e de que ainda vou lembrar dela em dois dias. Então, quando nos esbarramos por aí, e a figura chega de assalto, já rindo de algo que não lembro ter dito e me apresentando à sua namorada, só me resta sacar meu guia de sobrevivênvia e perguntar coisas como “E o pessoal, tem visto?” ou “Você continua lá?”, esperando que o camarada tenha pena de mim e me dê uma luz. Mas quando o entojado pergunta se eu lembro dele, antes de eu acessar o “arquivo morto” do meu cérebro, só me resta dizer o bom e velho “mais ou menos” e deixa-lo com a sem graça obrigação de me lembrar do porque ele se considera inesquecível para mim. É quase certo que, no fim da conversa, quando eu conseguir contornar a situação, vai rolar aquele convite para um chopp no futuro e eu, carioca que sou, vou dizer de forma natural: “Beleza! Vamô marcá!”
Você pode até me achar um pouco ruim depois disso, mas faz aí um balanço dos últimos dois dias, ou veja bem como se safou daquele convite para formatura ou conseguiu sair mais cedo daquela festa de criança, pois “tinha o casamento de um grande amigo para ir, onde, inclusive, será padrinho do casal”. Isto é muito melhor do que dizer que você não quer ir e que considera o covite uma afronta pessoal, além uma prova cabal da falta de discernimento do sujeito. Esta mentirinha é uma forma de preservar a amizade, minha gente!
No final das contas, a mentira, a serviço do bem, deveria ser considerada uma forma de carinho!
[...] This post was mentioned on Twitter by Homem Baixo and Fábio Scaffo, Daniel Chevrand. Daniel Chevrand said: POST FRESQUINHO!!!! MENTIR FAZ PARTE DE UM BOM CONVÍVIO http://migre.me/ajcc [...]
Quer dizer que era mentira então!??!?
[...] Crônicas de um Homem Baixo [...]