Sou facilmente abordado, na rua, por todo sortilégio de figura. Acho que tenho uma cara simpática o suficiente para que estranhos olhem para mim, principalmente em filas e coletivos, e acreditem que vou gostar de ouvir o que eles têm a dizer.
Gosto de me socializar e conhecer pessoas novas, mas não acho que deva fazer isso em fila de banco, por exemplo. Estou desgraçado da cabeça por estar em pé, há mais de 30 minutos, para pagar uma porcaria de conta, e aquele senhorzinho, que olhava para todos os lados procurando algo, achou que o fato d’eu respirar mais fundo significa que estou solidário com ele pela demora no atendimento. Daí para desandar a falar que “aquilo é um absurdo” e “que dali ainda teria que ir a não-sei-onde” é um pulo. E não adianta ignorar, meu rapaz. Ele falará mais alto para o caso de eu não está prestando atenção porque sou surdo. Quando a coroa que está atrás de mim, de repente, começa a concordar com ele e me alçar ao papel de rede de pingue-pongue, eu enfim ponho meus pés no capacho do Inferno. Ambos estão falando seus impropérios e olhando para mim, esperando que concorde com algo, que sorria ou que expresse algum sentimento. Nesse momento, geralmente, decido que vou pagar a merda da conta com juros e saio dali.
Ônibus é outro purgatório. Prefiro aquele cara que, quando dorme, faz peso no meu braço, do que o infeliz que não agüenta ficar calado por um minuto. No outro dia, uma senhora sentou-se ao meu lado e meu sacou um “você é cardiologista?”. Pronto! Sabia que, ao responder qualquer coisa, descobriria mais do que desejava sobre a hipertensão e arritmia cardíaca que assolavam aquela pequena Tia May, e é claro, de quebra, saber que a nora dela era uma jararaca, o filho era um banana e a neta devia ser uma “promíscua” (palavras dela, não minhas).
Já falei do meu problema com papinho de elevador, mas é na rua onde está a verdadeira selva. É na rua, onde os carentes te atacam como zumbis em filmes de Romero. É por esta e por outras, que não censuro – e até admiro – as pessoas que tem a decência de falarem sozinhas na rua! Até porque, às vezes, falar sozinho é a única garantia de uma conversa realmente interessante.
Vc Cardiologista? rsrsrsrs
Muito bom…..
Ao contrário da Laila, gosto dos textos menores. Uma das vantagens de ser homem é essa: Você pode reduzir a idéia central. Se fosse uma menina bonitinha, aí, meu velho… esse post seria longo e longo.
Parabéns, muito bom.
Um abraço,
Junior.
Não censure os caracteres ! Prefiro seus textos mais longos esse parece que foi cortado pela metade ou que faltou alguma história a ser contada !
Beijos