Há uns dois meses atrás, entrei em casa dando um belo soco na porta da frente. Precisava fazer algo para aliviar toda a tensão que estava sentindo e meu instinto macho-alfa me dizia que a violência era a melhor forma de dissolver minhas frustrações. Era a porta, ou catar alguém para “tentar a sorte”. Como minha educação e princípios da criação classe média niteroiense que recebi me diziam para “buscar um caminho mais civilizado”, descontei com a força que tinha, tudo que podia no primeiro objeto inanimado que me contrariou, ao negar-se se abrir no primeiro giro da chave.
Foi um daqueles socos cinematográficos e, tendo noção disso, consegui transformar aquele ato numa experiência extracorpórea e vê-lo de fora. Minha expressão de ódio e o movimento numa cadência perfeita, até o impacto, pois nesse momento, tive que dar razão a todas aquelas teorias sobre como a TV pode deformar a mente dos jovens. O que me levou a crer que poderia fazer algo do gênero e sair impune? Além de não conseguir transpor a porta no melhor estilo Jason Voorhees, ainda tive que tentar abrir a porta, com educação, com a mão esquerda…

A questão toda é que, mesmo depois de voltar a sentir meus dedos, minha frustração continuava lá, o que era óbvio. Maior, aliás! E eu precisava extravasá-la, com tanta urgência que a única coisa que me passou pela
cabeça foi correr. Simples assim. Correr até cansar. Não como quem foge de um incêndio, mas algo parecido com Forrest Gump. Até porque gordinhos não deveriam correr nunca – NUNCA! – e aquela era só uma medida desesperada para me cansar.
Então peguei minha bermuda abóbora, uma camisa branca e meu par de corrida e rumei como um espartano para a guerra e, ao pisar no calçadão, comecei a correr tentando achar uma cadencia que comportasse meu corpo, sem parecer que estou correndo em câmera lenta no mesmo lugar. Depois que consegui pegar o passo foi fácil. Ergui a cabeça e corri confiante, vislumbrando que, mantendo aquele ritmo, chegaria em uns 25 minutos no fim da praia. Isso deve ter durado uns 2 minutos, se tanto! O maldito ácido lático invadiu minhas pernas como Hitler entrando na França, me forçando a parar lentamente e reconhecer que pesar 94 kg, condensados em 1,66m, me colocava na categoria dos “sem preparo físico” para o que eu tinha em mente.
Como não podia voltar logo na primeira quadra, continuei andando. E andando. E andando. E acabei percebendo que, conforme andava me sentia menos irritado, as idéias iam se alinhando e um certo sentimento de “problema é teu” foi me fazendo, lentamente, sorrir com o canto da boca. Nunca acreditei, de forma sincera, que meu corpo liberaria endorfinas se eu fizesse uma caminhada – sim, sempre achei que fosse um verdadeiro preguiçoso de corpo e alma.
Ao fim da caminhada, eu só não estava tão dolorido como viria a ficar no dia seguinte, mas aquele negócio me motivou. Um amigo me ligou e disse que havia visto um gordinho correndo em Icaraí e que por um momento achou que era eu, “mas conhecendo o Fábio, isso seria impossível”, certo? Errado! De oito as nove, o gordinho aqui se une aos marombados figurantes de Malhação que perambulam pela praia e tem seu “momento relax” do dia, seguindo em frente.
É… quem te viu e quem te vê…
desde qnd vc tem 10 cm a mais q eu!!??? mente não, hein…
heheh
Fabio, você é incrível!!! tem que publicar todas essas crônicas… por favor, precisamos de autores como você, que falam da realidade com humor, desespero e verdade. Ahahahha. Muito boa!!!!